E QUEM DISSE QUE EU QUERO TRABALHAR?
Danuza Leão - Crônica de domingo 5.11, na Folha de São Paulo
Carta a d. Marisa
D. MARISA, a senhora deve estar muito feliz; seu maridoganhou as eleições, e será presidente por mais quatro anos. Parabéns.Imagino que quando ele foi eleito pela primeira vez, deveter sido difícil para a senhora; seria para qualquer mulher. Se habituar auma nova vida, ter que fazer coisas em que nunca pensou; por outro lado, nãopoder mais fazer um monte de coisas às quais estava habituada, ter queobedecer ao protocolo, andar cercada por seguranças, não poder entrar numshopping -a senhora deve ser louca por um shopping, não?- e tendo que teruma vida privada quase secreta, já que a imprensa está sempre de olho. De olho para falar da cor do esmalte de suas unhas, dopenteado, do botox que botou -ou não-, e correndo sempre o risco de alguémde sua intimidade ser indiscreta e contar o que a senhora come no café damanhã, se faz dieta, se fuma, enfim, todas essas coisas que qualquer mulhertem liberdade para fazer, menos a primeira-dama. Devem ter sido quatro anos difíceis, mas já passaram. Agora a senhora tem mais quatro pela frente; quais são seusplanos? Não seria hora de fazer alguma coisa além de ficar sentadanaquela cadeirinha, nas cerimônias oficiais, enquanto seu marido discursa?Ah, d. Marisa, esse país é cheio de problemas, e a senhora poderia ajudar emalguma coisa. Já existe o Bolsa Família e o Fome Zero, mas ainda há muitacoisa a ser feita. Não digo que a senhora seja a mulher mais poderosa do país,mas é casada com o homem mais poderoso, por isso pode decidir fazer o quequiser, e terá toda a ajuda de que precisar. Ajuda financeira, e ajuda decentenas de mulheres que adorariam colaborar com qualquer coisa que asenhora inventasse fazer. Capacidade a senhora tem: não me esqueço de um programa detelevisão onde a vi fazendo sanduíches para vender nas assembléias demetalúrgicos, anos antes de sonhar onde iria chegar. Esse tipo de coisa a senhora não precisa mais fazer, masexistem outras que não seriam nenhum sacrifício, e que poderiam fazê-la atémuito feliz por estar ajudando o governo de seu marido. Porque botar umacamiseta, sorrir e aplaudir, convenhamos, é muito pouco. Fazer o quê? Não falta quem lhe diga. Seu marido tem ummonte de assessores, todos prontos para ter 50 idéias geniais para que asenhora faça alguma coisa que melhore a vida de quem precisa. A senhora éforte, decidida, e não tem sentido passar mais quatro anos trocando deterninho para acompanhar o presidente nas viagens, sorrindo para osfotógrafos, não dizer nada sobre assunto algum, e não fazer rigorosamentenada. Não que a senhora tenha obrigação, mas seria bacana termosuma primeira-dama engajada em algum projeto social, fosse ele qual fosse. Mas se a senhora quiser continuar a viver a vidinha que vivehá quatro anos, poderia pelo menos - pela imagem, d. Marisa, pela imagem -visitar às vezes um hospital público (sem avisar, para ver a fila na porta),uma creche, uma escola, para mostrar que se interessa pelos maisnecessitados, e que seus próximos quatro anos não serão mais apenas umasférias passadas entre o Alvorada e a Granja do Torto, além de viajar pelomundo no seu luxuoso jatinho. Pense nisso, d. Marisa. Pegaria muito bem. danuza.leao@ uol.com.br
Danuza Leão, sugeriu em seu artigo que a Sra Marisa, esposa do Presidente da República,faça alguma coisa, que outros se aproveitem, sem ser a mesma vidinha pacata e improdutiva de viajar pelo mundo afora ao lado do seu marido.
Lembro certa vez que falei para uma parente que a faculdade estava procurando professora na área em que ela atuava, e que ela poderia se candidatar, quando ouvi a "fina"resposta:
E QUEM DISSE QUE EU QUERO TRABALHAR?
Por ai , Sra Danuza, pode ver a mentalidade de certas pessoas, sem se esquecer que a nobreza nem tinha o hábito de escrever (sendo que havia os escribas do Rei) pq afinal de contas, escrever era considerado "trabalho" e nada digno dos nobres que precisavam se ocupar o dia todo em não fazer nada. Afinal de contas, quem sempre sustentou a nobreza, foi o proletariado e a plebe ignara.
A sra se esqueceu disso, Danuza?
Carmen
Carta a d. Marisa
D. MARISA, a senhora deve estar muito feliz; seu maridoganhou as eleições, e será presidente por mais quatro anos. Parabéns.Imagino que quando ele foi eleito pela primeira vez, deveter sido difícil para a senhora; seria para qualquer mulher. Se habituar auma nova vida, ter que fazer coisas em que nunca pensou; por outro lado, nãopoder mais fazer um monte de coisas às quais estava habituada, ter queobedecer ao protocolo, andar cercada por seguranças, não poder entrar numshopping -a senhora deve ser louca por um shopping, não?- e tendo que teruma vida privada quase secreta, já que a imprensa está sempre de olho. De olho para falar da cor do esmalte de suas unhas, dopenteado, do botox que botou -ou não-, e correndo sempre o risco de alguémde sua intimidade ser indiscreta e contar o que a senhora come no café damanhã, se faz dieta, se fuma, enfim, todas essas coisas que qualquer mulhertem liberdade para fazer, menos a primeira-dama. Devem ter sido quatro anos difíceis, mas já passaram. Agora a senhora tem mais quatro pela frente; quais são seusplanos? Não seria hora de fazer alguma coisa além de ficar sentadanaquela cadeirinha, nas cerimônias oficiais, enquanto seu marido discursa?Ah, d. Marisa, esse país é cheio de problemas, e a senhora poderia ajudar emalguma coisa. Já existe o Bolsa Família e o Fome Zero, mas ainda há muitacoisa a ser feita. Não digo que a senhora seja a mulher mais poderosa do país,mas é casada com o homem mais poderoso, por isso pode decidir fazer o quequiser, e terá toda a ajuda de que precisar. Ajuda financeira, e ajuda decentenas de mulheres que adorariam colaborar com qualquer coisa que asenhora inventasse fazer. Capacidade a senhora tem: não me esqueço de um programa detelevisão onde a vi fazendo sanduíches para vender nas assembléias demetalúrgicos, anos antes de sonhar onde iria chegar. Esse tipo de coisa a senhora não precisa mais fazer, masexistem outras que não seriam nenhum sacrifício, e que poderiam fazê-la atémuito feliz por estar ajudando o governo de seu marido. Porque botar umacamiseta, sorrir e aplaudir, convenhamos, é muito pouco. Fazer o quê? Não falta quem lhe diga. Seu marido tem ummonte de assessores, todos prontos para ter 50 idéias geniais para que asenhora faça alguma coisa que melhore a vida de quem precisa. A senhora éforte, decidida, e não tem sentido passar mais quatro anos trocando deterninho para acompanhar o presidente nas viagens, sorrindo para osfotógrafos, não dizer nada sobre assunto algum, e não fazer rigorosamentenada. Não que a senhora tenha obrigação, mas seria bacana termosuma primeira-dama engajada em algum projeto social, fosse ele qual fosse. Mas se a senhora quiser continuar a viver a vidinha que vivehá quatro anos, poderia pelo menos - pela imagem, d. Marisa, pela imagem -visitar às vezes um hospital público (sem avisar, para ver a fila na porta),uma creche, uma escola, para mostrar que se interessa pelos maisnecessitados, e que seus próximos quatro anos não serão mais apenas umasférias passadas entre o Alvorada e a Granja do Torto, além de viajar pelomundo no seu luxuoso jatinho. Pense nisso, d. Marisa. Pegaria muito bem. danuza.leao@ uol.com.br
Danuza Leão, sugeriu em seu artigo que a Sra Marisa, esposa do Presidente da República,faça alguma coisa, que outros se aproveitem, sem ser a mesma vidinha pacata e improdutiva de viajar pelo mundo afora ao lado do seu marido.
Lembro certa vez que falei para uma parente que a faculdade estava procurando professora na área em que ela atuava, e que ela poderia se candidatar, quando ouvi a "fina"resposta:
E QUEM DISSE QUE EU QUERO TRABALHAR?
Por ai , Sra Danuza, pode ver a mentalidade de certas pessoas, sem se esquecer que a nobreza nem tinha o hábito de escrever (sendo que havia os escribas do Rei) pq afinal de contas, escrever era considerado "trabalho" e nada digno dos nobres que precisavam se ocupar o dia todo em não fazer nada. Afinal de contas, quem sempre sustentou a nobreza, foi o proletariado e a plebe ignara.
A sra se esqueceu disso, Danuza?
Carmen
